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Sobre a visita do papa ao Brasil
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É hora de acertar contas com o leão
Em meio ao fogo cruzado político-eleitoral
A morte de Isabella Nardoni
O Surreal Atleticano
 
 
Artigo: O aposentado e a famí­lia
 

Milton Pinto de Andrade

Posso dizer que sou um bom ouvinte. Ouço a maior parte do tempo e, às vezes, falo pouco. Assim, gostaria de comentar o que tenho ouvido de alguns aposentados.

Muitos deixam a entender que ficaram fora de sintonia do sistema administrativo familiar (expressão usada), devido à ausência, por causa do horário de trabalho.

A esposa acha que o aposentado está tolhendo as idéias, opiniões dos membros da casa. Outras esposas acham que o recém chegado aposentado está saindo muito, dando palpites e tentando controlar a casa e os gastos, tais como luz (controle de banhos), gás, telefone, horários e até mesmo a empregada da casa, com relação aos gastos de alimentação. Escutei também que faltou um planejamento para aposentadoria, envolvendo esposa, filhos e outros membros da família e mesmo participação da empresa. Daí surge a falta de diálogo, falta do que fazer, crítica constante dos familiares.

De alguns falantes, a decepção da aposentadoria era enorme. Uns passaram a beber com certa freqüência. Outros estão doentes e apresentam um quadro elevado de depressão. Tornam-se grandes consumidores de medicamentos. Os demais empregaram mal seu dinheiro, comprando coisas desnecessárias e fazendo alguns maus negócios. Passam a contrair empréstimos nas instituições financeiras e bancárias. Vi até caso de separação, cuja aposentadoria foi o início de tudo. A perda do poder aquisitivo é uma realidade para o aposentado. Vi alguns voltando ou procurando, novamente, o mercado de trabalho.

Alguns tiveram aposentadorias precoces (pouca idade) e tempo insuficiente para obter uma aposentadoria completa. Percebi ainda que algumas doenças de fundo emocional e ou psicossomática estão instaladas nessas pessoas. Ficou evidente também, e são pessoas que eu conhecia antes, que envelheceram mentalmente. Pessoas dinâmicas, que se exercitavam, faziam cálculos e, de repente, ficaram imobilizadas, inteiramente passivas e dependentes de outras pessoas.

Nessas escutas, senti que estava vivendo um mundo novo, cheio de velhos. A tecnologia, a comunicação, a internet, a globalização tornam os continentes ligados, enquanto que os nossos citados aposentados (velhos antes do tempo) permanecem imobilizados, sem idéias, tristes e incapazes de solucionar problemas e mesmo coisas insignificantes.
Os horários que passam enfrente à TV foram ampliados. Muito desses aposentados estão infelizes, incapacitados, tanto física quanto psicologicamente, cheios de ressentimentos, culpas e vazios. Não aceitam a si próprios e aos membros familiares mais próximos. Alguns desenvolveram compulsões de compras e contraíram dívidas. Muitos participam de jogos com a finalidade de ocupar o tempo.

De maneira geral, as perspectivas não são das melhores. Vejo que o aposentado acomodou. Por outro lado, tenho oportunidade de ouvir aposentados e familiares que têm planejamentos, diálogos, auto-estima elevados e são felizes. Para estes citados, os dias são pequenos. Fazem uma série de atividades diárias.

Existem saídas. Podemos dizer que são várias. Podemos citar: planejamento familiar e da empresa, trabalhos voluntários, voltar a estudar, participar de grupos etc. As saídas, como disse, são várias. Um dia temos que enfrentar o “terror” da aposentadoria. É bom que enfrentemos de frente, sem constrangimento e medo, tendo em mente que a aposentadoria é do trabalho, não da vida.


Milton Pinto de Andrade é Presidente da AEA-MG

 
 
     
 
 
AEA-MG Associação dos Aposentados e Pensionistas da Cemig
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