Artigo:
Olimpíadas no Brasil: portas abertas para a roubalheira
Não sei se o causo que relatarei a seguir é verdadeiro, mas não é difícil que seja. Dizem que, certa feita, o prefeito de uma cidade do interior do país convidou três empreiteiros para participar da licitação de construção de uma ponte no tal município. Participavam do certame um empresário alemão, um japonês e um brasileiro.
A primeira das ofertas veio do germânico. Este cobrou três milhões de dólares pelo empreendimento e todas as suas garantias. O candidato seguinte foi o nipônico, que, sob a alegação de que sua tecnologia era a mais avançada, orçou a construção em seis milhões de dólares. A proposta final coube ao brasileiro. Sem cerimônias, o “brazuca” disse ao prefeito que seus serviços custariam a bagatela de nove milhões de dólares. “O quê?”, questionou o prefeito, incrédulo diante de tão exorbitante orçamento.
“Calma, seu prefeito. Eu explico. Três milhões são para o senhor; outros três milhões, para mim; e os três milhões restantes ficarão com o alemão que vai construir essa ponte para nós”, explicou o construtor brasileiro, malandramente. No bom sentido, claro. Afinal, estamos no país da malandragem no bom sentido. Seja lá o que isso queira dizer. Precisa revelar quem venceu a disputa?
A menos que haja uma revolução no país nos próximos sete anos – algo improvável, convenhamos -, a história da ponte vai se repetir a torto e direito. Deixando o ufanismo e as patriotadas porta fora, há algo errado na estratégia de nossos governantes quando travam uma verdadeira batalha para que o Brasil sedie os jogos. De acordo com várias pesquisas, e não é preciso ser nenhum gênio para constatar, o foco do país deveria ser outro. Temos dezenas de milhões de pessoas passando fome. Outros tantos milhões de analfabetos (os de pai e mãe e os funcionais), sem contar que quase metade dos lares brasileiros não contam com saneamento básico. Fato que vitima mais do que qualquer guerra anualmente.
Não se sabe ao certo o preço da brincadeira. Sem dúvidas passará da casa dos bilhões de reais, assim como foi no Pan Rio 2007. Justificam dizendo que “legado” deixado pelas Olimpíadas compensa todo o investimento. Tal como no Pan, né não? Que herança ficou para o Brasil e para o Rio de Janeiro? Muitas das construções feitas para o Pan-americano estão entregues às moscas. Meu dinheiro e o seu foram pelo ralo. Aliás, o que foi herdado por todas as nações que se meteram a bancar Jogos Olímpicos? Será que o custo-benefício valeu à pena? Tenho lá minhas dúvidas. Mesmo que tenha valido, uma coisa é Espanha, EUA, Austrália, etc. sediarem jogos; outra é nosso país, que está anos luz atrás desses outros em desenvolvimento humano.
Os entusiastas das Olimpíadas no Brasil dirão que nós, como cidadãos em pleno exercício da cidadania, deveremos fiscalizar as obras, os contratos, onde cada centavo será empregado, como no Pan. Em outras palavras, até podemos ser fiscais, mas ficaremos com cara de palhaço, jeito de palhaço e pinta de palhaço. Pareceremos até palhaços. Mas, de tudo isso, uma coisa é inegável: o presidente Lula marca mais um gol de placa no cenário internacional. Em seu mandato, ganhamos a disputa para sediar Copa do Mundo, Olimpíada e tripudiamos em cima da crise, com a famosa “marolinha”.
Por Orozimbo Souza Júnior - jornalista
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