Artigo:
Os Kirchner e a gripe suína
Por Glória Paiva, jornalista
Foi-me dito por uma fonte médica que a gripe suína nada mais é do que mais uma variante da gripe (influenza) comum - que tem taxa de mortalidade de cerca de 0,5%, tanto quanto a gripe A. Mas pelo sim, pelo não, a influenza H1N1 tem dominado nossos noticiários e causado certo pânico. Lembro-me de quando escutei na CBN sobre os primeiros quatro casos desta doença na minha cidade. Eles foram, segundo as notícias, isolados e estavam sendo devidamente tratados. Se não me engano, os casos chegam a quase mil hoje, cerca de um mês depois.
E as autoridades do esporte insistem em trazer 4.000 argentinos, sem controle algum (desculpe, eles prometeram tentar algum controle, pedindo para quem estiver espirrando que, por favor, se dirija às autoridades da Anvisa...) para uma final de campeonato à nossa estimada cidade.
Bem. Afora os desabafos pessoais, gostaria de comentar uma análise interessante feita pelo Knight Center for Journalism in the Americas, sobre o silêncio argentino a respeito da gripe suína, que se transformou em epidemia na capital portenha.
Até alguns dias atrás, a imprensa argentina ignorara solenemente o tema da influenza H1N1 (ou gripe suína). Na edição do dia 4 de julho, a manchete da edição sulamericana do diário espanhol El País dizia: "A gripe A espalha-se pela Argentina com 100 mil possíveis afetados". Os subtítulos eram: "A pandemia avança sem controle e soma 44 mortes" e "O governo ocultou a realidade até o fim da eleição".
Aí está o cerne da questão, segundo o Knight Center. Não é de hoje que os Kirchner têm o costume de divulgar (ou não) as informações segundo sua conveniência. Os meios de comunicação só começaram a demonstrar interesse pelo tema da gripe um dia depois das eleições, "como se a pandemia, secundária durante a campanha eleitoral, tivesse assolado o país de repente", diz o artigo do Knight Center.
No dia 28 de junho, cerca de 27,8 milhões de argentinos compareceram às urnas, numa eleição antecipada pelo governo, para eleger metade das 257 cadeiras da Câmara dos Deputados e um terço dos 72 assentos do Senado.
Os Kirchner, porém, saíram perdendo neste pleito. Os candidatos do partido da presidente Cristina Kirchner ao Congresso Nacional foram derrotados nos principais distritos eleitorais do país. Conforme o governo temia, foi uma derrota inédita para o "kirchnerismo" desde que o ex-presidente Néstor Kirchner se elegeu, em 2003. Ele saiu vitorioso nas eleições legislativas de 2005 e nas presidenciais de 2007, quando sua mulher foi eleita.
E então, quando finalmente o suspense político se abrandou - apesar da derrota dos Kirchner -, o novo ministro de Saúde estimou que havia cerca de 100 mil contagiados pelo vírus H1N1 na Argentina, e esta informação dominou as notícias por vários dias. Cristina ficou preocupada e pediu para a mídia ser mais prudente para "não gerar pânico", informa o El Mercurio do Chile (um país com 19 mortos e mais de 9 mil contagiados pelo vírus).
"O primeiro caso na Argentina foi divulgado em 6 de maio e, desde então, 137 pessoas morreram. As autoridades só admitiram os primeiros casos fatais no último 4 de julho, poucos dias após o governo ter decretado emergência sanitária", afirma o Knight Center.
Segundo Viviana García Sotelo, do jornal MDZ, citada pelo Knight Center, a população acredita que os dados reais sobre o vírus foram escondidos até que passassem as eleições. "Não está claro qual foi o papel dos meios de comunicação nisso tudo mas, desde que o tema do vírus H1N1 tomou conta da imprensa argentina, a análise da derrota eleitoral do governo desapareceu da cobertura midiática."
No dia 3 de julho, a Organização Mundial da Saúde (OMS) fez uma reunião de emergência no México sobre o tema da gripe A. Autoridades expressaram enorme preocupação com a proliferação da doença no Cone Sul, especialmente nos casos de Chile e a Argentina. O ministro da Saúde da Argentina não compareceu: mandou um sub-sub, o vice-secretário. Mas a vice-ministra da Saúde do Chile foi categórica: "Preparem-se!" |
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