Artigo:
A volta dos que não foram
Jornalismo AEA-MG
É muito divertido viver no Brasil, né não? O Congresso Nacional começou o ano “ressuscitando” algumas figuras que pouco ou nada fizeram pela vida pública do país, mas que, ainda assim, têm amplo espaço e poder nas decisões políticas. Falo do senador José Sarney (PMDB-AP), eleito pela terceira vez presidente do Senado, e do deputado federal Michel Temer (PMDB-SP), que, também pela terceira vez, comanda a Câmara dos Deputados.
Mais preocupante do que a falta de criatividade dos nossos parlamentares, que insistem em apostar em árvores infrutíferas, é o fato de quase não haver renovação política no Brasil. As opções são escassas, tanto em nomes quanto em realizações para o povo. Só para refrescar a memória: José Sarney de Araújo Costa, 78 anos, é político de carreira. É aquele mesmo (o único), do famoso bordão “brasileiros e brasileiras”, que comemorou recentemente 50 anos de vida pública.
Sarney foi o trigésimo presidente brasileiro, cargo que, de certa forma, herdou graças a sua postura política. Ele é o que pode se chamar de “político radical de centro”. Quer dizer, vai para aonde a onda leva. Durante a ditadura militar, apoiou aos militares. Ao sair da presidência da república, passou a apoiar seu sucessor, Fernando Collor de Melo. Também deu apoio ao seguinte, Itamar Franco. E, para não perder o costume, foi aliado de Fernando Henrique Cardoso. Continuou com o mesmo fôlego e, como já era de se esperar, apoia o presidente Lula.
Nesse embalo de ressurreições, outro que está de volta com força total é Fernando Collor de Melo. O ex-presidente “collorido”, que é senador por Alagoas, foi eleito líder da Comissão de Infraestrutura do Senado, cargo dos mais cobiçados, por gerenciar bilhões de reais. A eleição foi graças a uma manobra de outro que andava sumido, mas que segue com respeitável influência, Renan Calheiros, grande articulador do PMDB no Senado.
Dia desses, um associado da AEA-MG nos sugeriu mandar uma carta a Sarney, cumprimentando-o pela reeleição e pedindo para que apoie a luta dos aposentados. Do ponto de vista da cortesia e das ações que podemos fazer pela categoria, é uma atitude muito válida. Contudo, será um ato sem préstimo, visto que o político em questão parece se preocupar pouco com as questões de interesse nacional. Afinal, nessas cinco décadas de vida pública, qual legado deixou?
Por fim, a leitura perfeita do que dissemos acima foi feita pela respeitável revista britânica The Economist, que publicou reportagem intitulada "Onde dinossauros ainda vagam", comparando eleição de Sarney a uma "vitória para o semifeudalismo". O senador, óbvio, irritou-se e pediu retratação da publicação. Um absurdo. O que os ingleses disseram que o mundo já não saiba?
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