Artigo:
A morte de Isabella Nardoni
Cirilo Martins Pontes
Ao efetuar algumas pesquisas relacionadas à banalização da vida, encontrei a notícia abaixo, publicada no dia 21/01, pelo jornalista Alexandre Lana Silva, de Belo Horizonte, intitulada “Gato mata cão por causa do latido”.
Dizia Alexandre que leu aquela notícia e não acreditou, penso que também não acreditaria. Dizia o seguinte: “Por causa de um latido simples, um gatinho matou um cachorrinho”. Questionou Alexandre: “E o direito desse cachorro de latir? Onde está?”. Assim, disse ele: “Passei a acreditar na história quando fiquei sabendo que o cachorro latia na porta da casinha do gato e tirava o sono desse animalzinho todas as noites”.
Isso levou-o a acreditar que não é privilégio dos humanos. Matar por coisas banais... Acrescentou Alexandre que, só no final de 2007 e início desse ano, as manchetes dos jornais em Belo Horizonte-MG foram assustadoras. “Ex-noivo mata namorada por ciúmes”; “Namorado atira na namorada por ciúme”; “Amigo xinga a mãe e é morto”. E outras notícias que seguem esse repertório de banalidades, maldades e sangue frio.
O que assistimos e ouvimos diariamente por todos os meios de comunicação? Ouvimos e assistimos, que mata-se por coisas banais, morre-se por coisas banais, rouba-se por coisas banais... Banais mesmo... Coisas banais! Violência do simples, com pouco significado... A Síndrome da Violência Banal.
Alexandre também nos deu conta que o gato não foi preso, e ninguém chora a morte do cachorrinho. No reino animal, o instinto fala mais que o cérebro. Mas, também, precisamos reparar mais nesses bichos, que respeitam e sabem viver em comunidade. É só reparar a cadela criando os seus filhotinhos. E quantas mães jogando seus filhos nas lagoas...
Concluiu Alexandre, que, hoje, ao colocarmos homens e bichos na balança e perguntarmos quem é mais irracional e, ao mesmo tempo, tem amor ao próximo, tenho minhas dúvidas... Onde estaria, nessa história, a exceção, o imaginável, o delírio de um escritor? Na história do gato que matou um cão ou nas histórias estampadas nas manchetes do nosso dia-dia?
Através do relato de Alexandre, perguntamos: o que esta acontecendo com as pessoas? Qual o acontecimento, qual causa, razão ou circunstância leva as pessoas a banalizarem tanto a vida, tornando-a tão insignificante, tão sem valor. Vemos diariamente, nos noticiários, o caso “Isabella Nardoni”, de apenas cinco anos, que foi jogada do 6º andar de um edifício em São Paulo. Uma linda menina, cheia de vida e inocência, que gostava de dançar balé, de passarinhos, cachorrinhos, gostava de brincar na piscina de bolinhas plásticas e de almoçar na escola com crianças da mesma idade, como descrevem as jornalistas Solange Azevedo e Martha Mendonça, da revista Época.
Particularmente, recuso-me a acreditar e aceitar que teria sido o seu pai e madrasta que cometeram tão horrendo crime. Pensaria até que isso pudesse ter ocorrido por um acidente ou quem sabe até por um terceiro malfeitor que invadiu o imóvel e lá praticou tal crime. Da mesma forma, pelo extremo amor e carinho que tenho por minhas filhas, não aceito sequer imaginar que qualquer maldade possa lhes acontecer, e tão pouco posso aceitar que o pai ou madrasta possa ser o causador da morte da menina Isabella.
Martha Medeiros, em 16 de abril de 2008, sobre o assunto, também se manifestou dizendo que “A expressão: banalização da violência" tem sido usada há anos para designar crimes estarrecedores que não estarrecem mais, brutalidades fora do comum que viraram comuns, casos inacreditáveis em que passamos a acreditar fácil, fácil. Com isso, a expressão caducou. Dizer que hoje há uma banalização da violência também virou banal. Eu não sei em que momento a morte passou a ser nada. Pensa Martha que talvez tenha sido a partir do João Hélio, aquele menino de sete anos que foi arrastado pelas ruas por um carro conduzido por assaltantes, preso a um cinto de segurança.
No caso da menina Isabella, ela foi jogada viva do 6º andar, por causa de quê? De algum surto de raiva, de algum destempero, alguma falta de controle, essas oscilações de humor que a gente costuma ter normalmente. O que nos faz pensar que esse mundo está perdido? O mundo não está perdido, a morte é que deixou de ser uma exceção. A morte não veste mais preto, não é mais trágica, perdeu a importância e o respeito. A morte é apenas um acidente de percurso, como um tombo, um atraso, um descuido.
Quando do assassinato do menino João Hélio, tive a oportunidade de escrever o texto abaixo, mais como um desabafo, texto esse que apesar de ter sido escrito em data não tão recente, ainda guarda uma similitude muito grande com que ocorre hoje com a menina Isabella.
A morte de João Hélio Fernandes
Quem assistiu e não se emocionou ao ouvir o depoimento dos pais do João Hélio? Particularmente, confesso que assisti aquele depoimento completamente tomado de emoção, com um nó na garganta, e com minha mente e coração totalmente congestionados e consternados pela dor daquela família, num misto de dor e revolta.
Os pais de João Hélio descreveram muitos detalhes da vida do menino, em sua casa, na escola, com seus amiguinhos e familiares, detalhes esses que na medida em que eram relatados, mais me sentia oprimido, pela dor da perda, como seu eu também fosse um membro daquela família. Mas a verdadeira dor e revolta daquela família somente poderão ser reveladas por eles, eu apenas posso imaginar o que sentem.
A mãe de João Hélio lembrava ou tentava se lembrar e descrever seus últimos momentos de vida, quando tentou retirá-lo de dentro do veículo, e era chamada de “vagabunda”, por aqueles animais, ou melhor, “MONSTROS”, porque chamá-los de animais é ofender os verdadeiros animais, que, quando matam, o fazem para se defender ou para matar a fome, enquanto que aqueles “MONSTROS” mataram por nada, talvez pela banalização e verdadeiro desprezo pela vida das pessoas.
A morte, por mais banalizada que seja, evoca não somente a dor dos atingidos por ela e do grupo social onde ocorreu, ela atinge também toda a população de uma país de dimensões continentais com o Brasil, como este fato, “Uma criança de seis anos morreu no fim da noite de quarta-feira ao ser arrastada num carro roubado por bandidos na zona norte do Rio de Janeiro". Um dia após a morte de João Hélio, outro crime semelhante: um homem foi morto quando retornava do aeroporto para sua casa, próximo ao local onde tudo aconteceu com o menino João Hélio.
Em data recente, uma família também é morta dentro de um veículo no interior de São Paulo, onde os assassinos atearam fogo no veículo com todos da família dentro. Segundo Antônio Marcelo Pacheco, da “Zero Hora”, a banalização da vida e do próprio mal revela a falência não apenas do Estado, mas de todo aquele imaginário construído para justificar os conflitos sociais, as diferenças econômicas, a exclusão cultural e a sobrevivência dos guetos urbanos. É agora que ainda podemos e queremos imaginar tal morte, que enfrentemos a banalização do mal não com uma maior incidência do Estado policial, mas, ao contrário, que se queira buscar a compreensão da origem, da maternidade dessa banalização. É vital passarmos do luto à luta, isto é, do enterro simbólico daquela imagem de sociedade que não existe mais.
A violência nasce da indignidade e da banalização. Nós só tomamos consciência dela delas quando se atiram em nossa frente, obrigando-nos não apenas compreende-las, mas a aceitá-las, pois o Estado, que tem a obrigação de proteger seus cidadãos, é incompetente para colocar fim à violência, pois ele, por tradição, está acostumado a conviver com a miséria. A morte do menino João Hélio Fernandes não traz apenas a imagem dos agentes dessa ação banal, bárbara e, lamentavelmente, comum. Ela carrega também a imagem do nosso próprio espaço. É o nosso desinteresse interessado que abre o leque para esses atos, no mesmo sentido em que é a nossa tradição em buscar o combate à violência, e não a sua compreensão que reproduz essa indústria altamente capacitada da banalização da vida.
Naquela oportunidade, Aline, irmã de João Hélio Fernandes, escreveu a seguinte carta:
"Socorro! Cadê a justiça?
Ele é de menor? Eu sei. Eu também sou, e meu bebê também era. Na hora que esse “menor” apontou a arma pra minha cabeça e arrastou meu bebê até a morte ele foi muito adulto. Agora é muito fácil pra ele ser tratado como uma criança, quando, na verdade, ele foi um monstro cruel e sem coração. Ele deve ser tratado como adulto! Olha pra mim. O que você vê? Uma mulher e não uma criança. Eu sei o que faço e procuro agir de maneira correta. Tenho 14 anos e estou péssima. Minha família está sem chão, o Rio emocionado, e o Brasil revoltado.
Se essa não é a hora da mudança, quando será? Quando acontecer novamente? Quando mais uma vida for tirada por um homem de 16 anos? E o pior é que ele só vai passar 3 anos de sua vida dentro de um centro de recuperação. É muito fácil garotos como ele cometerem crimes bárbaros, sabendo que praticamente nada acontecerá com eles, que a justiça não será feita. Quanto ao presidente e outros políticos que não estão de acordo, das duas uma: ou eles não têm filhos, ou eles não têm alma. Eles andam cercados de seguranças e permitem que esses crimes aconteçam. Não queremos aparecer, não queremos vingança, queremos apenas Justiça. Brasília, acorda!!!
O principal assassino, Diego, disse que não sabe o que é sentir a perda de um filho porque não tem um, mas além de não ter filho não tem coração. O Brasil está em fúria, pena de morte não resolve, eu desejo justiça rigorosa e para os políticos, eu peço consciência, que é hora de mudar. Ao pai de Diego, eu agradeço de todo o meu coração, porque ele, sim, é um cidadão de bem, que teve uma atitude corajosa e digna de um ser humano.
Obrigado Brasil pelo conforto e pela solidariedade comigo e com minha família. Onde quer que nosso anjinho esteja ele sabe que é muito amado, mas agora ele está melhor que todos nós aqui. Peço a colaboração de todo o Brasil para que assinem o abaixo assinado para a redução da maioridade penal e que participem da comunidade do Orkut: JOÃOZINHO PEDE JUSTIÇA.
Conto com a ajuda de todos. Aline"
Da mesma forma que não só o Rio de Janeiro, mas o todo o Brasil se emocionou e chorou com a morte de João Hélio, agora, uma vez mais, São Paulo e o Brasil se emocionam e choram pela menina Isabella. Penso que o Brasil não necessita de mais leis, acredito que bastaria que fossem cumpridas as que hoje estão a nossa disposição, e que crimes como esses não sejam varridos para debaixo do tapete. O que se espera é que se apurem e punam com todo o rigor esse horrendo crime, seja quem for que o tenha praticado. Pouso Alegre-MG, 18 de abril de 2008.
Cirilo Martins Pontes é Representante da AEA-MG em Pouso Alegre.
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