Artigo:
Em meio ao fogo cruzado político-eleitoral
Jornalismo AEA-MG
É cada vez mais impressionante a constatação de que, em ano eleitoral, os interesses do povo são varridos com mais velocidade para debaixo do tapete. Na verdade, vivemos em um país que não nos respeita, nem nunca nos respeitou enquanto cidadãos. Não temos segurança; emprego digno sempre foi “artigo de luxo”; até bem pouco tempo, mais da metade da população não tinha acesso às condições mínimas de saneamento básico; sem contar os milhões de miseráveis e analfabetos que nosso Brasil “coleciona”.
Pior do que tudo isso é ver que os homens que elegemos para resolver todos esses problemas, em sua grande maioria, agem de modo a atender interesses subalternos. Vemos pouquíssimas ações desenvolvidas no sentido de reverter o quadro acima descrito. O jogo político se desenvolve num ambiente cujo raio de ação efetiva vem para atender aos interesses de poucos. Em ano de eleições, como este 2008, isso fica mais latente e é exemplificado em picuinhas políticas e jogo de empurra, em questões nas quais o povo é o principal derrotado.
Dois dos assuntos predominantes na agenda e no noticiário político atuais exemplificam bem essa lógica. O que mais se fala hoje é do famigerado dossiê que o Ministério da Casa Civil teria preparado sobre os gastos corporativos durante o governo FHC. O outro tema em pauta, que atinge a esfera do absurdo, é a epidemia de dengue no Estado do Rio de Janeiro. Ambas as situações são usadas como munição entre governo e oposição. Logo que vieram á tona os escândalos sobre os gastos dos cartões corporativos do governo federal, a base governista partiu para o ataque como estratégia de defesa. Em vez de apurar irregularidades, buscou-se erros semelhantes no governo passado.
A CPI, que poderia ajudar a elucidar para o povo o que há de podre na farra com o dinheiro público, nasce fadada ao fracasso, pois governo e oposição travarão uma luta para esconder informações, em vez de clarear as coisas. Fica uma troca de ameaças desse tipo: “Se você me investigar, eu te investigo”. Até agora, fala-se muito no tal dossiê. Mas qual o conteúdo desse famigerado levantamento de dados? Não sabemos e, provavelmente, nunca saberemos, já que o que está em jogo não é o desejo da população, e sim dos partidos políticos, que estão se armando para a disputa nas urnas que ocorrerá em outubro.
O caso da dengue no Rio consegue ser pior, pois envolve mais diretamente vidas humanas, dezenas de vidas que se perderam e outras que poderão se perder. Curioso, para não dizer revoltante, é verificar que os três níveis de governo (federal, estadual e municipal) não chegam a um acordo para o combate à epidemia devido a rivalidades políticas. O governo do Estado do Rio de Janeiro é aliado ao governo Lula. No entanto, o prefeito da capital Fluminense é das mais fortes vozes de oposição ao Palácio do Planalto. Enquanto os governantes não falarem a mesma língua, por motivo de vaidade, de interesse político ou mesmo por picuinhas, o povo segue agonizando. Só mais um lembrete: outros cinco Estados brasileiros estão em alerta, com risco de epidemia de dengue. São eles: Amazonas, Rondônia, Pará, Rio Grande do Norte e Bahia. Até quando?
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