Artigo:
As incoerências do Brasil
Jornalismo AEA-MG
Há poucos dias estivemos diante de um dos maiores escândalos -a expressão mais correta é essa mesmo- da história deste país. "Influenciados" pelo clima de solidariedade que se propaga entre as pessoas no fim de ano, nossos parlamentares concederam um aumento de salário de 91%, só que para eles mesmos. À boca pequena, na calada da noite, em uma reunião que contou com pequena parcela dos cerca de 600 representantes do povo em Brasília, um "milagre da multiplicação" elevou vencimentos mensais de cerca de R$ 12.800,00 para algo na casa dos R$ 24.500,00.
Em compensação, centrais sindicais e outros segmentos de defesa dos trabalhadores suaram a camisa, lutaram, brigaram, para conseguir garantir um ínfimo aumento no salário mínimo. Toda essa luta foi necessária porque a proposta governamental para o reajuste era mais insignificante ainda. No final das contas, a grande massa assalariada brasileira, que recebia R$ 350,00, passará a receber R$ 380,00, a partir de abril. Uma correção próxima de irrisórios 8%, não bastasse o pequeno poder de compra dessa remuneração.
Que os parlamentares têm um papel importante e, por isso mesmo, merecem ser remunerados à altura e ter regalias, não resta dúvidas. Mas para tudo há um limite. Além dos altos vencimentos, eles têm décimo quarto, décimo quinto salários e vários outros benefícios, como passagens aéreas, verba indenizatória (serve para cobrir gastos diversos, e hoje é de R$ 15.000,00/mês), moradia e mais. Somado a toda essa lista, ainda podem legislar em causa própria e reajustar o que ganham, em um percentual muito distante da realidade.
Felizmente, entidades de classe e, principalmente a população, "deram o grito" e os políticos recuaram. O aumento está suspenso até segunda ordem. Ao que tudo indica, deve ser votado em fevereiro de 2007. Mas, diante da mobilização do povo, há quem diga que não existe mais clima para colocar em vigência os 91%. Mas, caso essa idéia não seja removida e vá para frente, desafiamos nossos políticos a estenderem o percentual de reajuste para o salário mínimo e os benefícios previdenciários. Caso contrário, a população, certamente, irá reagir contra essa incoerência.
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